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terça-feira, 5 de março de 2013

Outro dia me procurei por aí...



Outro dia me procurei por aí, mas não me encontrei. Perguntei em todos os lugares, mas ninguém soube de mim. No caminho, encontrei um homem chamado Cristão e perguntei se ele sabia onde eu estava. Ele me disse que se eu encontrasse a Cristo, me encontraria também. Segui pelo caminho que ele indicou, cada detalhe com cuidado. Depois de muito tempo caminhando, descobri que estava andando em círculos. Não encontrei, nem a Cristo, nem a mim.

Decidi tentar outros caminhos, me procurar em algum outro lugar. O que não faltou foi gente pra me ajudar. Havia um cara chamado Esoterismo, misterioso e atraente, que parecia saber o caminho. Mas logo descobri que ele estava mais perdido do que eu. Mesmo assim, Esoterismo me apresentou muita gente interessante. Seus vários amigos do Oriente também tentaram me ajudar, mas no fim, todos estavam perdidos também. Porém, depois de uma longa conversa com todos eles em uma noite qualquer, me disseram que talvez eu não estivesse perguntando às pessoas certas, afinal, nenhum deles sabia como eu era, já que nunca me conheceram. Com então poderiam dizer onde eu estava?

Então entendi que deveria perguntar onde eu estava para quem me conhecia de verdade. Mas quem me conhece de fato?

De um estalo, enquanto pensava sozinho a respeito dessas coisas, soube o que tinha que fazer. Só havia uma pessoa que já havia me visto com sou de verdade e me conhecia por completo: EU MESMO, só que no futuro.

Claro, como eu não havia pensado nisso antes?

Coloquei meu casaco e parti em direção ao futuro à procura de “EU MESMO”. Cruzei desertos e mares, montanhas e vales. Enfrentei perigos, espadas, frio e fome. Conheci muitos lugares lindos também, e enfim, cheguei ao meu destino. O Futuro.

Chegando ao Futuro, fui recebido por “EU MESMO”, em um lugar solitário. Ele, aproximando-se de mim, não me permitiu que falasse qualquer palavra, pois ali elas não eram necessárias. “EU MESMO” me abraçou, e no calor de meu próprio abraço, simplesmente compreendi:

“Você está onde não está. Nem aqui, nem lá, mas em movimento. Portanto, estar é o verbo errado. Ser é o correto”.

Então tudo ficou claro. Eu nunca poderia ter me encontrado com a ajuda de nenhum dos amigos que conheci pelo caminho, porque nenhum deles é. Meus amigos estão, mas não são. Já eu, embora esteja hoje aqui e agora, amanhã já não estarei aqui. Não estarei porque sou, sempre em movimento.

Então, finalmente descobri que o que eu precisava achar era a minha busca, e agora que encontrei, posso continuar procurando.

Ser é estar em movimento, seguindo sempre para onde não estou, mas apenas sou.

Giordano Narada
Itapema, Sc
06/03/2013
00:20 

domingo, 23 de dezembro de 2012

QUASE MORTE - Episódio 01














David acordou com uma baita dor de cabeça, era como se tivesse levado uma surra. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu. Esforçou-se um pouco mais e percebeu que estava com os olhos abertos, porém o lugar onde estava era tão escuro que era como se estivesse de olhos fechados. Estava deitado no chão, tateou e encontrou uma parede, onde se apoiou para ficar de pé. Ergueu-se com dificuldade, enquanto imaginava que lugar era aquele. Não se lembrava de nada da noite anterior, a não ser que estava em um bar com o pessoal do trabalho, quando recebeu uma ligação de Jéssica, sua noiva, pedindo que fosse até sua casa com urgência. Preocupado, pegou um taxi na entrada do bar, porém acordou ali, no chão daquele lugar escuro, sem ter a menor ideia de onde estava ou do porque estaria ali.

Continuou tateando, apoiando-se nas paredes do lugar procurando uma saída, até que encontrou uma maçaneta e girou. A porta estava aberta. Ele abriu a porta devagar, pois não sabia o que iria encontrar do outro lado. Aos poucos a luz foi entrando no lugar onde estava e seus olhos arderam. Abriu toda a porta e, por alguns segundos, não conseguiu enxergar absolutamente nada. Mas em seguida seus olhos foram acostumando-se com a claridade, e à medida que começava a ver o que estava ao seu redor ficava ainda mais confuso, nada fazia sentido.

David estava no terraço de um prédio alto. Olhou para traz, para ver de onde havia saído, e era um pequeno quarto, talvez um almoxarifado vazio, sem janelas, apenas uma porta. Caminhou um pouco mais, em direção a uma das extremidades do terraço com a intenção de olhar para baixo e ver as ruas na tentativa de descobrir onde estava. Ao caminhar, notou que estava descalço. Também observou suas que roupas não eram as mesmas que usava quando entrou no taxi, e agora vestia uma calça jeans azul desbotada e uma camiseta branca, um pouco suja, talvez por estar deitado no chão.

Continuou caminhando até à borda do terraço do prédio, olhou para baixo e viu que não estava mais em sua cidade. Era um lugar estranho, uma cidade que não conhecia.

Havia também um estranho silêncio no lugar. As ruas estavam vazias. Parecia ser uma cidade muito grande vista de cima, porém não havia movimento de carros ou pessoas nas ruas. David sentiu medo, estava confuso, não sabia onde estava e nem como chegou ali.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POR UMA FRAÇÃO DE SEGUNDOS...


Estávamos, os dois, deitados no tapete da sala assistindo a alguma coisa que não me lembro o quê. Então, uma das cenas do filme despertou em nós uma calorosa discussão, acho que era algo sobre não falar de religião, futebol e política. Estávamos rindo um do outro porque nenhum dos dois queria perder aquela batalha que definiria quem é que tinha razão. Então tivemos, ao mesmo tempo, a brilhante idéia de transformar as almofadas do sofá em armas de efeito moral. 

Armas nas mãos, sangue nos olhos, FIGHT!

Depois de uns dez minutos de luta acirrada, eu já estava exausto enquanto ela estava ainda com toda a energia para passar a noite toda me soterrando debaixo de toneladas de almofadas, se fosse preciso, apenas para me dar uma lição. Aproveitando-se de um deslize meu, ela roubou-me a almofada e se projetou sobre mim, agora com as duas “armas” nas mãos. Eu a segurei pelos braços e, com a força do ímpeto com que ela avançou sobre mim, nós dois caímos sobre o tapete, eu de costas para o chão, ela por sobre mim. Nossos olhos se encontraram, os rostos bem próximos, podíamos sentir a respiração um do outro, ofegantes que estávamos devido ao esforço da “batalha”. Por uma fração de segundos pareceu que o tempo havia parado e ficamos ali nos olhando por uma eternidade. Finalmente ela quebrou o silêncio e disse:

- Parece coisa de filme
- E o que acontece agora?- perguntei.
- O rapaz beija a moça. – respondeu ela.

Giordano Narada

HOJE SONHEI COM VOCÊ


Hoje sonhei com você. Sonhei que você me sabia apesar de eu não haver revelado. Toda a minha história estava ao meu redor, todos os que um dia conheci, até mesmo alguns com quem estive apenas uma vez e que nem mesmo sei o nome. Era minha história como testemunha de que você me sabia apesar de eu não ter revelado. O seu olhar me fez tremer por dentro, tive medo de estar enganado, interpretando errado. Você me soube e me quis.

Eu era muito jovem quando te conheci, te soube e te quis. Vi você com os olhos de quem vê uma pedra preciosa em estado bruto, ainda cercada por outras rochas de valor infinitamente inferior, porém, estava claro para mim como seria depois de lapidada. Eu vi o seu futuro e desejei ser parte dele.

Quis o destino que escolhêssemos caminhos diferentes, mas ainda assim, nossos caminhos se cruzaram. Talvez tenha sido apenas uma paixão de adolescente, qualquer coisa passageira, essa era a minha esperança. Mas seja lá o que for não passou com o tempo.  

Outra vez te vi e agora não mais como uma pedra bruta. Parece que o tempo te fez muito bem, ficou mais bonita. Mas não foi só isso, você amadureceu. Muitas coisas não resolvidas dentro de você agora se mostram mais do que resolvidas. E outras questões muito maiores ocupam sua vida, ao mesmo tempo em que hábitos e escolhas inacreditavelmente simples revelam que a pedra bruta que conheci agora está tomando uma forma belíssima, embora surpreendente.

Sim, eu realmente te vi, mas não te conheci. É por isso que quando agora te vejo não te reconheço. Talvez porque quando te vi, na verdade vi a mim mesmo, projetado em você. Talvez porque meu olhar tenha mudado, mas não estou certo disso.

Eu desisti de você. Muitas vezes eu desisti. Desisti todas as vezes. Sim, todas as vezes em que eu me imaginava dividindo e multiplicando meus devaneios insanos com você, minha covardia e baixa auto-estima me lembrava que eu nunca seria alguém capaz de ser o guardião de tão preciosa e rara esmeralda.

Mas esta noite eu sonhei e, por um breve instante acreditei. Você estava linda como nunca e à vontade caminhando entre minhas memórias como quem compreende totalmente. Então você se aproximou, colocou as duas mãos sobre o meu peito, sentindo meu coração acelerado e sorriu. Ah, que sorriso. Hipnotizado pelo teu olhar e embriagado pela idéia de que você finalmente havia me notado, decidi que te beijaria bem ali, em frente a todas aquelas testemunhas, coroando minhas memórias com o “aqui e agora” destilado de teus lábios, dividindo a minha vida em antes e depois de agora. Com as duas mãos toquei sua cintura, e fiz minha mão esquerda deslizar por suas costas até tocar sua nuca e entrelaçar meus dedos em seus cabelos. Mantive minha mão direita em sua cintura e te inclinei levemente enquanto aproximava meus lábios dos seus. Enquanto me aproximava observei seus olhos se fechando, preparando-se para que meus lábios tocassem os seus. Em instantes eu estaria no paraíso. Fechei meus olhos para poder desfrutar sensorialmente do que, por dez anos, só pude viver em minha imaginação. Eu não devia ter fechado os olhos.

Acordei na sala do meu apartamento, deitado no sofá de frente a TV. Fiquei ali, observando os créditos do filme que havia terminado há pouco, ouvindo a bela melodia que me espancava o peito, cheio  de agonia por não ter conseguido me manter no sonho até conseguir aquele beijo. Puxa vida, nem mesmo sonhando...

Giordano Narada
18/12/2011

domingo, 18 de março de 2012

ENTRE UTOPIA E ILUSÃO


Utopia é uma cidade espetacular. Embora eu não tenha nascido lá, tenho um carinho muito especial por ela e seus moradores. Eu diria que é uma cidade bipolar. Na maior parte do tempo é uma cidade pacata, típica do interior, mas de uma hora pra outra pode ficar agitada e movimentada. Utopia sempre me fascinou, e foi por isso que me mudei pra lá já faz um bom tempo. Eu realmente queria descobrir o segredo daquela cidade, mas quando finalmente descobri eu soube que nunca deveria ter me mudado pra lá.


Nos arredores de Utopia havia uma cidade encantada chamada Ilusão, cidade onde habitavam as feiticeiras do amor. As habitantes de Ilusão nunca saiam da cidade, pois haviam sido confinadas ali pelo Grande Feiticeiro e, até onde sabíamos ninguém jamais escapou. Os mais antigos contavam que elas se alimentavam de corações apaixonados e a única maneira de as feiticeiras se alimentarem era quando viajantes desavisados resolviam procurar pouso em Ilusão. Nunca mais foram vistos, exceto um que sobrou para contar a história.

Utopia era uma cidade muito bela e seus habitantes eram pessoas extraordinárias e interessantíssimas, porém muito ocupados com seus próprios devaneios e eu comecei a me sentir um tanto deslocado. Então, inquieto e curioso, resolvi dar uma espiada em Ilusão. Arriei o meu cavalo e parti com um misto de medo e excitação que faziam meu coração disparar. Queria ver o que tinha lá, mas tinha medo de não voltar. Acho que sou atraído pelo que me dá medo.

Avistei a cidade ao longe e fiquei deslumbrado. Nunca havia visto tanta beleza. Será que eu conseguiria, pelo menos de relance, por meus olhos em uma das habitantes de Ilusão?

Desci do cavalo e caminhei em volta da cidade procurando encontrar alguma fenda no muro que me permitisse ver o interior. Encontrei uma abertura em um dos cantos do imenso muro quadrangular que cercava a cidade e, ao que parecia me mostraria algo no interior da cidade. Meu coração parecia me espancar por dentro de excitação. Eu não sabia o que esperar, e certamente não estava preparado para o que eu estava prestes a descobrir.

Olhei de um lado e de outro para ver se alguém me observava. Senti-me seguro e então me curvei para olhar pela fenda e, para minha surpresa, havia alguém do outro lado com um olhar incandescente como que aguardando a minha chegada.

Foi ai que eu a vi, e a reconheci.

Era ela, a mulher misteriosa que eu havia observado em duas ou três ocasiões em Utopia. Todas as vezes que eu a vi, a cidade estava fervilhando. Mas como seria possível? As feiticeiras eram prisioneiras de Ilusão. Ninguém poderia sair de lá, a não ser que... Será? Não pode ser. A única forma de uma feiticeira sair de Ilusão seria com a permissão do Grande Feiticeiro. Mas por que ele permitiria tal coisa?

Enquanto eu conjecturava estas coisas meu cavalo começou a se agitar. Voltei-me para ver o que acontecia e, como num passe de mágica lá estava ela. Nunca em meus sonhos mais sem limites eu havia imaginado uma mulher tão estonteantemente bela em toda a minha vida. Meu coração, que antes estava acelerado agora parecia que iria parar. Fiquei totalmente sem reação, e aquele frio na barriga foi subindo pelo peito até chegar como um nó na garganta, uma vontade de chorar por ter encontrado, não somente o segredo de Utopia, mas também a rainha de Ilusão.

Logo quando cheguei à Utopia eu havia ouvido uma historia sobre a rainha de Ilusão. Ela seria a única que podia sair e entrar a hora que quisesse, pois tinha alcançado graça aos olhos do Grande Feiticeiro, porém a condição seria a de que ela nunca se deixaria ver por ninguém sob pena de ser confinada novamente, e desta vez para sempre. Porém esta história foi desmentida por um dos principais da cidade, pois dizia que o Grande Feiticeiro nunca permitira que uma habitante de Ilusão, nem mesmo a rainha, saísse da cidade. Mas eu a vi, e a reconheci.

Quase sem forças tentei falar, mas as palavras não pareciam fazer sentido. Ela se aproximou e com os olhos me disse tudo o que eu precisava saber. Era como se nos conhecêssemos a um milhão de anos. Nada mais importava. Ela se aproximou ainda mais, eu também queria corresponder, mas não conseguia me mexer. Por um segundo cheguei a pensar que alguma coisa estava errada, mas o seu olhar me trouxe de volta ao que realmente importava. Ela chegou bem perto, inclinou-se e com seus lábios encostados em meu ouvido disse algo que não consegui entender. Tentei pedir que repetisse, mas comecei a ouvir um forte zumbido como se viesse de todos os lados. De repente tudo sumiu. Silencio. Era como seu eu houvesse entrado no nada absoluto.

Tentei me mexer. Desta vez meu corpo obedeceu. Comecei a olhar de um lado para outro e não via nada além de... NADA. Como um quarto branco, só que sem paredes, nem teto, nem chão. NADA! Comecei a gritar. Quem sabe alguém poderia me ouvir, mas minha voz retornava com um eco estrondoso e em seguida, silêncio e NADA. Fiquei ali por uma eternidade. Tentei imaginar a quanto tempo eu estava ali, mas não havia noite nem dia. Chorei.

Chorei por muito tempo, tanto tempo que até já nem sabia por que eu estava chorando. Então, em algum momento eu entendi. Abri os olhos e vi. Eu havia sido enfeitiçado e agora era prisioneiro de Ilusão. Como os viajantes desavisados eu havia sido fisgado. Agora já não passava de mais uma opção no cardápio das feiticeiras do amor e logo ela, a rainha, virá para terminar o que começou.

Se você, morador de Utopia ou viajante desavisado tiver que passar pelo caminho de Ilusão, aceite um conselho: passe de largo. Não tente olhar para dentro de Ilusão, pois seus olhos podem encontrar os olhos dela. E acima de tudo nunca, JAMAIS, permita que uma feiticeira do amor fale ao seu ouvido, pois certamente serás levado cativo como eu, e fatalmente servirás de alimento para aquelas que se alimentam de corações apaixonados.

Giordano Narada

Seis da tarde


Seis da tarde, hora de ir para casa, ver minha esposa e meus dois filhos. Preciso correr se eu quiser ver meu s filhos acordados, afinal, são dois metrôs, um trêm e um ônibus até nossa casa na periferia. Mês passado fui contemplado no consórcio e consegui o nosso tão sonhado carrinho, mas ainda tenho que pagar o IPVA e o licenciamento. Ainda vou ter que andar uns dois meses de ônibus até conseguir o dinheiro pra pagar tudo.

Já são sete da noite e eu ainda estou saindo do metrô para pegar o trêm. Tudo superlotado, como sempre, e cada um com sua correria. Desde que eu comprei essa botina nova não sinto mais os pisões do pessoal enbarcando e desembarcando com tanta pressa que nem percebem que o debaixo é meu. 

Oito da noite e eu estou quase em casa. O circular atrasou um pouquinho mas agora o motorista está indo à toda velocidade para recuperar o tempo perdido. Derrepente tenho a impressão de que também perdi algum tempo, mas logo esqueço no que estava pensando quando uma senhora me pede para sentar no lugar em que estou. Olho de um lado e de outro para ver se realmente não há nenhum lugar vazio para a distinta senhora sentar-se. Estou tão cansado do trabalho duro o dia inteiro, gostaria de permanecer sentado, mas me levanto e dou lugar a quem viveu mais do que eu.

Nove da noite e estou caminhando do ponto de ônibus para casa, faltam sõ mais seis quarteirões para chegar no meu pequeno paraíso. Mais uma vez tenho a sensação de que estou me esquecendo de algo, mas prossigo e rapidamente chego no meu destino, finalmente em casa. Abro a porta e meus dois filhos, Vera e Pedro, saltam do sofá e agarram-se em minhas pernas como se não houvesse nada melhor no mundo. Eu os pego no colo e os abraço com força. Minha esposa, Rosa, está lavando a louça do jantar. Deixo as crianças no sofá e me dirijo à cozinha para dar um beijinho em minha esposa. Que saudade! Ela retribui o beijo e me avisa que minha comida está na geladeira, é só esquentar no microondas. Agradeço pelo cuidado, pego uma cerveja na geladeira e vou para o quintal. Tiro a camisa e olho para o céu com uma pergunta: O QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI?

Giordano Narada

MATINTA PERERA - Uma lenda da Amazônia


A Matinta Perêra é uma velha de preto, com os cabelos desgrenhados. Prefere sair em noites sem luar. Quando sente a presença de humanos ela assobia estridentemente, como se gritasse o próprio nome: Matinta Perêra!

Ela apavora às pessoas.
Pode-se transformar em animais.

Se quer descobrir quem é a Matinta Perêra, ao ouvir o assobio, convide-a para tomar café de manhã. A primeira pessoa que chegar pedindo café ou tabaco é ela.
A Matinta Perêr, segundo o povo, pode fazer feitiços para causar dor de cabeça e no corpo. Alguns acabariam morrendo.

De Loudes conta que quando era menina morava, com seu pai, na fazenda dos Campos de Quatipuru. Costumava aprontar poucas e boas. Volta e meia ganhava um castigo da mãe ou um cocorote do pai. Como ela mesma dizia: “era umcan-cão de fôgo”! Atiçava as cobras nas suas tocas, perseguia animais bravos, desafiava o encantado. Um dia seconfrontou com a Matinta Perêra.

– Fi-ri-fi-fi-fiuuu… Matinta Perêra… das grandes!

– Olha, Dona Matinta, me deixa dormir e amanhã passa aqui para tomar café e pegar tabaco.
No dia seguinte uma velha apareceu na casa do Vicente, pai de De Lourdes, para pegar o tabaco. Vicente deu o tabaco à velha e De Lourdes ganhou uma surra de vara, de cuieira… para nunca mais querer ouvir falar da Matinta.

Mas, o que é a Matinta Perêra?

Existem várias formas de escrever o seu nome: Matinta Pereira, Matinta Perêra, Matinta Perera, Mati-Taperê, Mat-taperê, Matim-Taperê, Titinta-Pereira. Ela se apresenta como sendo uma velha, geralmente acompanhada de um pássaro. O pássaro assobia, à noite, para perturbar o sono das pessoas e assustar as crianças.

A velha, uma pessoa idosa do lugar, carregaria a maldição de “virar” Matinta Perêra. Em Castanhal a “Nêga Antônia” ficou com esta fama, de assombrar as pessoas. Às vezes ganhava asas e voava pela vizinhança. A Nêga Antônia herdou este maldição da antiga Matinta Perêra, que morava no interior das matas do Apeú. Dizem que um dia, quando “Nêga Antônia” ia passando por aquelas bandas, para juntar lenha, ouviu uma voz perguntando:
– Quem quer? Quem quer?
– Eu! Respondeu Antônia, prontamente.
Foi o seu erro. A antiga Matinta queria passar a maldição, antes de morrer!
Nas noites mais escuras era a “Nêga Antônia”, agora, que assombrava as ruas da pequena Castanhal. Quem quisesse ver era só esperar, acocorado, embaixo de alguma mangueira: lá pelas tantas aparecia uma negra horrível, vestida de prêto. Quando queriam pegá-la ela se transformava numa grande porca e fugia, rapidamente para o mato.

Um dia o caçador Pernambuquinho, experiente e com pelejas célebres contra cobra grande e curupira, resolveu acabar com as presepadas de “Nêga Antônia”. Mandou o Padre Zé Maria benzer uma bala de chumbo, carregou a espingarda “tauari” e foi para baixo da mangueira, esperar. Alta hora da noite aparece a preta. O caçador se prepara. Quando a “Nêga”, virada Matinta, percebe que caiu em uma tocaia do caçador atira-se ao chão e transforma-se em porca. Antes que ela fugisse o caçador deu um tiro.

Daquele dia em diante a “Nêga Antônia” sumiu. Quando apareceu estava com uma das mãos quebradas. Quem não creditava viu e acreditou: o tiro atingiu apenas uma das patas dianteiras da porca. E a Matinta Perêra, daí em diante, nunca mais assombrou as noites da cidade – o encanto havia-se desfeito.

Durante muito tempo os moradores da Vila do Apeú, vizinha a Castanhal, ao passar pela casa abandonada da Nega Antônia, ouviam:

– Quem quer?

CarloZaraujo
amazonia.fantastica.com.br

OUTRA VEZ, SONHEI COM VOCÊ

Esta noite sonhei com você... Outra vez...

Havia uma sala ampla e todos estavam vestidos em traje de gala, mas não eu. Minhas roupas eram comuns, o que me fez pensar: o que eu faço aqui?

A porta se abriu e você entrou, vestida de noiva. Eu não era o noivo.

Eu estava cansado e triste e resolvi deitar, ali mesmo, no chão da sala. Havia um tapete persa no centro, daqueles que raramente se encontra. Deitei ali e me encolhi com frio.

Havia pressa e alguns tentaram conduzir você através de outra porta, mas você me olhou, e me viu, outra vez.

Você se desvencilhou de quem lhe segurava pelo braço, intentando conduzi-la a outro lugar, deu a volta em minhas costas e deitou-se ali, também no chão, comigo, naquele tapete persa.

Você me abraçou pelas costas e se encolheu comigo. Você com seu longo vestido de noiva e eu com meus trajes de plebeu, no chão, sob o olhar estupefato de todos os distintos cavalheiros e as finas damas presentes.

Eu já não via mais você, mas podia senti-la, e por um breve momento não senti mais frio.

Giordano Narada
22/01/2012