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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Antes eu queria mudar o mundo, agora só quero uma cerveja


Antes eu queria mudar o mundo, agora só quero uma cerveja.

Depois de fazer tanta besteira tentando mudar o mundo, e depois de me tornar proprietário de uma coleção enorme de decepções, eu desisti. Parei de querer ser o dono da bola e o dono do campinho. Aliás, perdi até a vontade de jogar.

Eu fui perdendo aquela fome de vencer na medida em que fui me deparando com o mau caráter das pessoas com quem me associei. Ao mesmo tempo, fui percebendo que no mar da vida, eu não fazia o estilo tubarão. E fiquei, até recentemente, com a impressão de que só os tubarões é que ficavam por cima.

Sai de São Paulo, aquela selva de pedra com uma dinâmica implacável e com um nível de exigência em que se pode dizer que “quem faz em São Paulo, faz em qualquer lugar”, para morar em uma cidade praiana de 40 mil habitantes, no interior de Santa Catarina. Essa mudança foi incrivelmente radical pra mim. Aqui em Itapema, de uma maneira geral, não existe ninguém querendo mudar o mundo. As pessoas por aqui querem, no máximo, ter uma boa velhice.

Há quem empreenda, há quem discuta política, há quem queira melhorar, mas até agora não conheci um único morador dessa cidade que queira mudar o mundo. E isso de certa forma me fez bem. Me acalmei. Parei de correr.

Quando cheguei aqui eu não dormia. Quando tinha uma boa noite de sono, dormia 3 horas seguidas. Mas isso porque eu tinha um sentimento de urgência em mim. Era como se o mundo dependesse de mim para o seu próximo ponto de inflexão, seu próximo passo evolucional.  De certa forma eu não estava errado, mas o peso que eu vinha carregando era desproporcional. E foi tudo isso o que me fez chegar à frase que repeti algumas vezes no Twitter por um tempo: “antes eu queria mudar o mundo, agora só quero uma cerveja”.

Depois de um ano morando aqui em Santa Catarina, achei que havia sossegado de vez, mas embora eu saiba que não sou um tubarão, também não sou uma sardinha. Ver tanta gente acomodada, conformada com uma vida mediana, entretendo gente que rica que só aparece no verão. Gente boa, com potencial pra fazer alguma coisa visivelmente significativa, mas que opta por ser dona de casa, ou de abrir um negócio local para poder pagar o apartamento que comprou à prestação ou ter um carrinho melhor. Os supermercados fecham para o almoço, padarias vendem pão frio e não abrem de domingo, o shopping é um galpão com stands feitos com divisórias de escritório, o máximo do sonho de 99,8% dos moradores da cidade é um dia ter uma casa para poder alugar para turistas no verão. E mais uma série de outras coisas que não vou elencar aqui para não ficar descritivo demais, eu me irritei. Fiquei com raiva de tudo isso. E é interessante como a raiva de desacomoda.

O tempo de descanso foi muito importante, mas o desejo de fazer mais e melhor é muito maior do que a dor da decepção.

Não bebo mais cerveja. Não gosto mais do sabor. Por todo o significado que a cerveja tinha pra mim, hoje ela tem sabor de acomodação, de medo, de rancor, de mágoa, de distração, de mediocridade. Já descansei o suficiente, e já bebi cervejas demais. Ta na hora de mudar o mundo outra vez.

Não quero chegar no fim da vida, olhar pra traz e dizer: “construí várias casas para alugar e hoje tenho uma velhice confortável”. Quero deixar a minha marca no universo, quero fazer visivelmente a diferença no mundo. Não que as outras pessoas não tenham sua importância, claro que tem. Quem leu o texto anterior no blog sabe o que penso sobre pequenos gestos. Tudo é importante. Mas terminar a vida assim, não é meu caminho.

Quero chegar na reta final, na bandeirada, na linha de chegada, no por do sol da vida, na noite da existência e poder dizer...

FOI DU CARALHO!


Giordano Nârada

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

INTER-ERUPÇÃO!


Tem umas coisas que sinto que, parece que se alojam num lugar bem ali, atrás do umbigo. Dá a impressão, inclusive, que é algo físico mesmo. Quando sinto, é como se fosse arrancar o meu fígado fora, rins, estômago, TUDO! Eu queria encontrar uma palavra pra isso, mas acho que não existe. Mas se eu tivesse que escolher uma palavra que coubesse o que sinto, eu escolheria “inter-erupção”.

Eu sei que essa palavra não existe, mas acho que ela descreve bem o que sinto porque é como se houvesse algo em ebulição dentro de mim. Mas não é o tempo todo. 

Embora eu saiba o tempo todo que isso está aqui, não é todo o tempo que parece que vai explodir do meu peito ou sair pela minha boca. É como se, de vez em quando, uma erupção interna acontecesse, mas fosse sempre interrompida por alguma coisa que eu não sei o que é.

É como se eu mantivesse alguma coisa viva aqui dentro, em cativeiro. Algo forte. Mas não é mais forte do que a minha determinação de deixar isso aqui dentro, preso, escondido, calado. Não sei o que é, mas acho que não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

 Tenho a impressão de que algumas coisas sobre nós devem ficar guardadas pra sempre.

Talvez um dia eu tenha coragem de olhar. Talvez isso me rasgue de dentro pra fora um dia desses também. Não sei. Só sei que de vez em quando essa “coisa” luta pra sair. Hoje foi um dia desses. Ainda não passou. Não sei se vai passar.


Giordano Nârada

sábado, 6 de julho de 2013

Quando meninos se tornam homens (meu ritual de passagem)


Existe um sorvete de palito que eu gosto chamado Mega. Quando eu era criança ele era meu sonho de consumo. Quando a propaganda do Mega Branco passava na TV eu sentia minha boca encher de água, mas nós não tínhamos dinheiro pra comprar. Eu pensava comigo que quando eu fosse “grande” eu compraria muitos Mega Branco só pra mim.

Morávamos em Belém, no Pará, minha mãe, minha irmã mais nova e eu, quando meu pai que já não dava as caras havia cinco anos, apareceu. Ele havia se separado de sua segunda mulher e convenceu mina mãe a mudar-se com ele para Ribeirão Preto, em São Paulo. Fomos, felizes.

Em um mês ou dois a coisa toda mudou. Meu pai voltou com a mulher dele e, durante um curto período de tempo (mas que pareceu uma eternidade) moramos todos juntos na mesma casa. Meu pai, minha mãe, minha irmã e eu, e mais os outros três filhos que meu pai teve com sua segunda esposa. Foi bem estranho.

Então meu pai resolveu ir para Brasília trabalhar e eu fui junto ajudar no trabalho, deixando minha mãe e minha irmã em Ribeirão Preto. Fiquei por lá uns três meses, eu acho. Nesse meio tempo, meu pai parou de mandar dinheiro para a minha mãe, o que fez com que ela e minha irmã passassem sérias dificuldades, e eu intermediava a conversa entre ela e meu pai. As coisas estavam bem difíceis e meu pai não conseguia mais sustentar as duas famílias. O stress aumentou, e ele começou a me tratar com uma agressividade que eu não havia visto ainda. A mesma agressividade com que a vida nos trata, mas eu não sabia. Eu tinha 13 anos.

Certa tarde, trabalhando na Feira do Livro, meu pai me pediu alguma coisa e eu não consegui encontrar. Ele começou a zombar de mim por meu comportamento de “garoto do mato” e depois do terceiro adjetivo pejorativo eu não aguentei e sugeri que ele fosse “tomar no cu”, e saí dali.
Cruzei a cidade toda á pé e quando cheguei ao apartamento onde morávamos, com a intenção de pegar minhas coisas e conseguir uma carona de volta pra Ribeirão, ele havia passado por lá antes de mim e dito à sua mulher que não abrisse a porta pra mim, com medo de que eu fosse fazer alguma coisa à sua mulher ou aos seus filhos. Não era o caso.

Meu pai esperava que eu me sentasse na escada e esperasse, mas eu não esperei. Saí à rua para ver o que faria, mas já era noite.  Foi quando eu tive a brilhante (risos) ideia de pedir algum dinheiro para os taxistas do outro lado da avenida. Naquela época o pãozinho custava 0,10 e se eu conseguisse 1 real, poderia sobreviver todo o fim de semana com 10 pães. Era uma sexta feira.

Pedi para os três primeiros taxistas e desisti. Eles achavam que eu queria comprar drogas. Eu contei a minha história verdadeira, mas eles achavam que eu era só um mentiroso criativo. Quando já havia desistido, um dos taxistas que já havia me visto por ali, perguntou qual era a história e eu contei. Ele disse que não me daria dinheiro, mas me levou em uma barraquinha onde vendia de tudo e disse que eu poderia pegar o que eu quisesse, por quanto tempo precisasse. Fiquei feliz e comi, mas moderadamente, para não pesar ao bom homem.

Fiquei do outro lado da avenida e esperei meu pai chegar, as onze na noite. Ele não me viu. 

Ele tinha um Santana Quantum marrom, com rodas em formato de estrela. Eu achava lindo. Havia um probleminha na trava do porta-malas que ainda não havia sido resolvido. Eu sabia como abrir, e também sabia que haveria uma coberta e travesseiros no porta-malas, pois viajávamos muito pela região e sempre dormíamos no carro. Esperei dar meia noite e fui dormir no carro. Na época havia uma rádio-novela que passava naquele horário na emissora da LBV, era Nosso Lar do Chico Xavier. Eu gostava de ouvir as histórias, e fiquei ouvindo até pegar no sono.

Saí do carro antes que meu pai acordasse às seis da manhã. Tomei meu café na barraquinha onde meu amigo taxista me autorizou a comer e fui tentar resolver minha situação. Para encurtar a história, consegui falar com a minha mãe por telefone e descobri que eu tinha um parente que era Ministro da Justiça à época. Quando ela conseguiu encontrá-lo para me ajudar já era Domingo. Peguei um taxi ali mesmo, no ponto de taxi do meu amigo, e fui pra a casa desse parente que, ao contrário do que eu imaginava, vivia em um apartamento modesto. Mas ainda assim era um lugar bem legal. Comi pão de queijo com eles no café da manhã e ganhei 50 reais para voltar pra casa.

Naquela tarde peguei um ônibus de Brasília pra Ribeirão Preto e tive bastante tempo pra pensar na vida. De madrugada, o ônibus parou em um posto de gasolina e havia um tempo pra que os passageiros comprassem o que quisessem comer. Eu andei pela loja e vi um freezer de sorvete com a propaganda do sorvete Mega. Eu ainda tinha algum dinheiro daqueles 50 reais que ganhei. Não comprei mais nada, apenas o sorvete Mega Branco.

Comi aquele sorvete no ônibus e chorei. Chorei porque sabia o que significava aquele Mega Branco. Significava que eu não era (e nem podia ser) mais um menino. A partir daquele dia eu teria que fazer minhas próprias escolhas e sofrer as consequências delas. Eu não tinha mais meu pai pra comprar o que eu pedisse, e minha mãe estava em uma cidade estranha, sem emprego e agora também sem casa. A partir daquele dia e daquele Mega Branco, eu teria que cuidar da minha família, e se eu quisesse alguma coisa teria de conseguir por mim mesmo.

Fomos acolhidos por um bicheiro rico da cidade que nos cedeu uma casinha no fundo de uma chácara. Durantes seis meses ele nos guardou ali. Nesse período consegui o meu primeiro emprego e, depois de seis meses fomos morar em um lugar que podíamos pagar, na periferia de Ribeirão.
Desde então, toda vez que eu vejo um sorvete Mega, me lembro daqueles três dias em Brasília, e daquela noite no ônibus. Também me lembro de que existem pessoas boas, apesar de serem mais raras hoje do que antes. Mas principalmente, me lembro do dia em que deixei de ser um menino para me tornar um homem.


Giordano Nârada

quarta-feira, 13 de março de 2013

Dúvidas que angustiam a alma



Eu tenho experimentado uma dúvida tão angustiante que às vezes tenho a impressão de que vou enlouquecer.

Sempre tive uma vida muito difícil, sempre fui pobre. Mas desde os 18 anos eu aprendi a ganhar dinheiro, e comecei a fazer meu caminho. Desde então já ganhei muito dinheiro, mas perdi logo em seguida por causa das associações que fazia. Era competente em ganhar, mas sempre estava vulnerável a alguém que me “quebrava as pernas”.

A última vez foi bem recente, quando comecei um negócio novo e promissor aqui em Santa Catarina. Mas, de uma hora pra outra, meu fornecedor de produtos parou de vender e mudou todo o negócio. Como era uma coisa nova, não existia ninguém em Santa Catarina além desse distribuidor, e eu não tinha cacife pra bancar a vinda do produto de São Paulo. Meu negócio promissor foi por água abaixo.

Mais uma vez, tudo ia bem até que alguém interrompeu o processo e, como sempre, o único prejudicado fui eu. Agora, me diga que tipo de macumba é essa que está sobre mim?

Pensando sobre isso cheguei a duas conclusões:

Eu sei ganhar dinheiro, e isso já está provado. Aprendi o caminho do foco e da determinação. Isso realmente funciona. Mas é aí que entra a segunda conclusão. Eu preciso resolver alguma coisa dentro de mim, que faz com que eu atraia sobre mim essas coisas ruins.

Em resumo, sou competente, mas sou azarado.

Depois de entender isso fui colocado diante de dois caminhos. Ou eu entro de cabeça nessa de ganhar dinheiro e amarro melhor as coisas (contratos e acordos melhores), ou eu me concentro em resolver o que, dentro de mim, faz com que essas coisas ruins aconteçam sempre.

O problema é que, quando fui procurar saber o que tinha pra resolver aqui dentro, entendi que é algo tão importante pra mim quanto pra todas as outras pessoas no planeta, pois diz respeito à nossa evolução. Essas questões que eu tenho pra resolver em mim, tem a ver com a minha relação com as coisas materiais em detrimento do que é realmente importante, que é a espiritualidade.

Agora, quando falo em espiritualidade, não estou falando em religião, em hipótese alguma. A religião é um câncer que precisa ser eliminado. Mas estou falado de uma realidade que não estamos dando atenção porque estamos concentrados em coisas temporais e passageiras. Estou falando de quem ou o que nós realmente somos.

Fico em busca de grandes negócios, sempre, porque quero ter dinheiro suficiente pra não pensar em dinheiro e poder me concentrar nas coisas realmente importantes. Mas acho que isso é meio que uma maneira que eu achei pra tentar enganar a mim mesmo, disfarçando a ganância e o desejo de poder. Porque eu me pego pensando no que o dinheiro que eu vou ganhar pode proporcionar a mim, ao invés de estar pensando em modos de servir a humanidade com meus talentos e habilidades desde já.

Então, cheguei a um ponto onde tenho que escolher se vou seguir o caminho dos que se tornam ricos, ou vou seguir o caminho dos que evoluem até o ponto onde o dinheiro não é importante.

Hoje, estou quebrado. Mas já estive assim antes, e já me levantei outras vezes. Então posso escolher me levantar de novo, ou posso escolher ficar aqui e resolver as coisas dentro de mim.

Já fazem mais de 10 anos que estou nesse sobe e desce desgraçado. Já mudei de ideia centenas de vezes. Tudo o que eu fiz deu certo no começo, mas depois alguém puxou meu tapete. Isso pode ser um sinal de que o meu caminho é pra dentro e não pra fora, ou pode ser apenas medo de enfrentar mais uma batalha e perder, outra vez.

O que você escolheria se estivesse no meu lugar?

Giordano Narada
Itapema, Sc
13/03/2013
14:14

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fantasmas de um futuro que nunca aconteceu



Tenho sido assombrado por fantasmas de um futuro que nunca aconteceu. A frase pode parecer confusa, mas é a única que eu consegui formular pra dizer como me sinto.

Eu estou sempre me projetando para o futuro. Digo “projetando”, mas não no sentido de planejar, mas sim de projétil, de me lançar com uma bala perdida rumo a qualquer lugar que não seja, nem aqui, nem agora.

Apesar de me esforçar pra viver o presente, não consigo não pensar no que pode acontecer se eu tomar essa ou aquela decisão. E algumas vezes eu me pego pensando: “E se eu tivesse tomado uma decisão diferente da que eu tomei no passado, como seria meu presente?”.

Então, quando isso acontece, é como se eu voltasse em algum ponto da minha história, mentalmente, e começasse a viver, na ambiência criada pela minha imaginação, uma história nova, que eu nunca vivi. E isso acontece muitas vezes.

Quando não estou ocupando a minha imaginação com o futuro que nunca aconteceu, me pego sonhando acordado com um futuro que, igualmente, nunca vai acontecer. Como eu sei que nunca vai acontecer? É simples. O futuro que estou imaginando naquele momento, só poderia acontecer se eu decidisse seguir por um determinado caminho que não vou seguir, porque decidi assim. Mas mesmo assim, eu “engato uma quinta” naquele pensamento e, quando percebo, lá estou eu novamente no futuro errado.

“Volta o cão arrependido...”

Dizem que há determinados estados de consciência que nos levam a outras dimensões, ou mesmo a outros universos. Às vezes eu acho que visito esses lugares. São estes os lugares onde eu experimento novos rumos, onde as coisas dão certo, onde eu sei quem eu sou e o que estou fazendo ali. E isso não é um problema, eu até gosto de “viajar pela Hellmans Air Lines” de vez em quando. O problema é quando eu volto desse quase-transe.

Eu volto à minha realidade, aos meus afazeres, às minhas obrigações, às consequências de minhas escolhas anteriores e ao meu presente, mas não volto sozinho. Volto acompanhado por fantasmas.

Sou constantemente atormentado pelos personagens dos muitos futuros possíveis que visitei. São fantasmas de quem eu gostaria de ser, ou do que eu gostaria de viver. Fantasmas de um futuro que nunca vai acontecer.

Quisera eu não ter visitado nenhum destes universos paralelos, nem ter tido o vislumbre do que as decisões que eu não tomei e nem tomarei poderiam me proporcionar. Na verdade, poderia ser que eu tomasse outros caminhos e não acontecesse como imaginei, mas isso eu nunca vou saber.

Quisera eu conhecer um exorcista capaz de exorcizar-me deste mal, mas como me livrar da minha própria imaginação e da minha própria frustração?

Meus demônios imaginários nascem no espelho, e se alimentam da dúvida que é fruto do medo, este que com suas profundas raízes toca lá no fundo da alma. Isso é bonito de escrever, mas se fosse uma pintura, seria uma imagem terrível.

Pensando nisso, cheguei à conclusão de que visitar outros universos não é da minha conta. E que, pior que os fantasmas do passado, são os fantasmas do futuro.

P.S: Se alguém souber como desliga isso, me conta?

Giordano Nárada
Florianópolis, Sc
25/02/13
23:40

sábado, 8 de dezembro de 2012

ACREDITO!


Acredito?

Eu acredito no agora, aqui
Acredito nesta casa onde estou agora
Acredito nestas palavras que estou escrevendo agora
Acredito na música que toca enquanto escrevo
Acredito em mim, porque estou aqui e agora
Acredito na morte, essa nunca falha
Acredito no poder da vontade, mas só agora
Acredito na fé, mas não a tenho
Acredito no amor e no sofrimento que ele traz
Acredito em milagres, mas não em milagreiros
Acredito em sonhos, mas só as vezes
Acredito em nada, porque nada é a fonte de tudo
Acredito na dúvida, porque é a mãe de todas as certezas
Acredito no passado, porque é disso que sou feito
Só não acredito no futuro, porque ele não existe

Eu acredito no agora, porque ele SEMPRE está aqui



Giordano Narada

sábado, 22 de setembro de 2012

O DIA DA DECEPÇÃO


O problema da ilusão é que ela parece real. Quem está iludido não sabe que está, e quem tenta libertar o iludido geralmente fracassa porque ele acredita com todas as forças que sua ilusão é real. A ilusão rouba a alma dos homens.

Foco, por outro lado, é uma faca de dois gumes. Ele é bom pela mesma razão que é ruim porque quando se tem foco, se é capaz de concentrar-se de modo absoluto em algo, observando cada detalhe minimamente, o que pode ser fator determinante para atingir o alvo com perfeição. Mas o problema do foco é que ele deixa você cego para todo o resto. 
      
Agora, imagine alguém focado em uma ilusão!

Algumas vezes você só saberá que está focado em uma miragem quando chegar perto o suficiente, e pode ser que esse “perto o suficiente” signifique estar no meio do deserto, sem água, sem comida e só.

Foco é uma ferramenta essencial para a vida, mas o efeito colateral pode ser bem ruim se não for previsto e controlado. Penso que se for possível nos cercarmos de algumas pessoas em quem confiamos para pedirmos conselhos, a cegueira que o foco traz pode ser minimizada, porque nossos amigos e conselheiros serão as pessoas que nos alertarão para outros aspectos de nossas vidas que não somos capazes de enxergar no momento. Mas ainda permanece o problema da ilusão.

Quando alguém está focado em uma ilusão, não é capaz de ouvir seus amigos e conselheiros. Não porque não os queira ouvir, mas porque o “canto da sereia” da ilusão já o fisgou, como um vírus que o pega de surpresa e o põe de cama em febre de uma hora pra outra. E é aí que esse alguém descobre se está sozinho ou não.

Quando você estiver focado em uma miragem, e persegui-la com todas as suas forças até chegar perto o suficiente pra descobrir que era só uma ilusão, vai se decepcionar e, depois de lamentar, vai olhar para os lados. Se você tiver sorte de encontrar alguém ali, de pé ao seu lado, você é uma das pessoas mais sortudas desse mundo.

Ninguém consegue convencer um iludido de sua ilusão, apenas o dia da decepção é capaz de fazer isso. E quando esse dia chegar, o iludido precisará do amor de pé ao seu lado, esperando com água, comida e com o mapa do caminho de volta. Se não for assim, é provável que o iludido morra no deserto de fome, sede e solidão.

Todos, sem exceção, mais cedo ou mais tarde, perseguirão uma miragem. Muitos morrerão no deserto, alguns conseguirão voltar por conta própria, porém muito machucados e outros até mesmo sem alma. Mas alguns serão capazes de perseguir uma miragem, enfrentar o dia da decepção e retornar inteiros e mais experientes para o seu caminho. Esses são os que, quando acordam de seu transe no meio do deserto, encontram o amor, de pé ao seu lado.

Aprenda a ouvir seus amigos, cuide bem do seu amor, e torça pra que ele esteja lá no dia da decepção. 


Giordano Narada
São Paulo, SP
22/09/2012
10:40am
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

NÃO QUERO DORMIR, NUNCA MAIS!



Não quero dormir, nunca mais.

Não quero dormir porque não gosto daquele período em que meus pensamentos criam asas, logo antes de pegar no sono. É nessa hora que eles viajam pra lugares que eu gostaria de esquecer, e me trazem sentimentos que eu gostaria de nunca sentir. Na verdade os sentimentos são bons, mas é só a lembrança desses bons sentimentos, e isso é ruim. É ruim porque me lembro que não tenho mais o que gostaria de ter pra sempre, e dói.

Não quero porque, antes de dormir eu penso, e quando eu penso, dói. Então dormir, pra mim, é sinônimo de dor, mas não como aquela dor que você sente quando esbarrou com o dedão do pé na quina do sofá. Também não é aquela dor de quando você pulou o muro de casa e torceu o tornozelo, nem tampouco é aquela dor de quando você errou a manobra com o skate e quebrou o braço. Estou falando da dor de ter a sua alma arrancada fora, sem anestesia ou preparação prévia. Estou falando daquela dor que dói no peito como se fosse a própria morte chamando seu nome com sua voz inconfundível.

É por isso que não quero dormir, nunca mais.

Giordano Narada
Peruíbe, SP
13/09/2012
03:09am

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ME PERDI!

Eu queria que você existisse. Quando eu te criei, foi porque achei que pudesse ser real. Criei seu jeito de falar, seu amor por mim, seu carinho, seu cuidado com meu coração. Criei seu espírito guerreiro, sua alma sensível, sua inteligência, sua fé em mim, em você, em nós. Eu criei você.

Depois de todo o trabalho que tive pra te desenhar na minha cabeça, comecei a te procurar. Procurei nas ruas, nas praças, nas cidades, no campo, em todos os lugares imagináveis, e até mesmo alguns lugares inimagináveis, mas não encontrei você e, cansado, desisti.

De repente, você apareceu. Exatamente como eu havia desenhado, feita pra mim. Mas como eu havia desistido de procurar, não te reconheci. Depois de passar por você, na vida, fiquei com sua imagem na cabeça, como que tentando lembrar algo que havia esquecido. Depois de tempo e esforço, me lembrei, e doeu.

Quis tanto te encontrar, mas nunca consegui. Quando desisti, te encontrei, mas não te reconheci. Quando me lembrei de você, era tarde demais.

Te criei, te busquei, te encontrei, te perdi, me perdi...

E agora?

Giordano Narada
São Paulo, SP
28/08/2012
00:03

domingo, 12 de agosto de 2012

INSATISFAÇÃO


São 06:30 de Domingo e eu ainda não dormi. Acordei as 11 da manhã de sexta e não consegui mais dormir. Ouço o tic-tac irritante do relógio na parede, sentado no sofá da sala pensando que o tempo está passando e eu ainda não fiz nada que signifique alguma coisa além do ordinário na vida.

Meu corpo quer descansar, mas a minha mente não pode permitir. Dormir parece errado quando há tanto o que fazer.

Eu sofro de uma profunda insatisfação comigo mesmo e com o mundo. Acho que, em meio a 7 bilhões de pessoas com potencial ilimitado, há pouquíssimos espíritos corajosos que acreditam poder fazer alguma coisa pra transformar a realidade em que vivemos. A maioria de nós vive apenas com o propósito de sobreviver através maior número de anos possível, e para garantir que seus filhos continuem a fazer o mesmo quando crescerem. Mas, será mesmo que isso é viver? Eu acho que não.

Viver é atingir o seu máximo potencial, sendo o melhor que você pode ser, é realizar os sonhos que nascem da alma e ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo. Pra mim, viver é atingir completamente o estado da realização pessoal. Sobreviver não é sinônimo de viver.

Não consigo dormir porque eu sei dessas coisas, e é minha Vontade que todos saibam o que eu sei, para que o mundo entre em ordem, mas o problema é que eu não faço a menor ideia de por onde começar. Por essa razão eu sofro de uma espécie de insatisfação crônica, que não me permite me sentir satisfeito com nada. Por um momento, parece que encontrei aquilo que eu precisava encontrar, mas, no momento seguinte, quando olho um pouco mais de perto, percebo que na verdade não era realmente o que eu estava procurando, e aquela canção do U2 parece continuar tocando, vez após vez em minha mente: “I still haven't found What I'm looking for – eu ainda não encontrei o que estou procurando”.

Eu queria mudar de música...

Giordano Narada
Ribeirão Preto, SP
12/08/2012
06:30am

sábado, 28 de julho de 2012

SEM SONO


Eu já te conhecia dos meus sonhos, sim, porque sonhei com você minha vida inteira. Pena que esse sonho era só meu.

Sonhava que quando nos encontrássemos nos reconheceríamos, como quem já se encontrou em outras vidas, outros mundos, outros universos. Quando te vi imediatamente te soube, te senti e te reconheci, mas você não me viu.

Conversamos por horas a fio durante dias, ouvimos música, rimos, choramos, mas você não me viu.

Eu me aproximei e você se assustou.
O amor assusta.

Tinha medo de nunca te encontrar, mas agora que te encontrei gostaria que não tivesse acontecido. Quando era só um sonho você também me sentia, me sabia, me reconhecia. Agora que te encontrei, vi que era apenas um sonho... Um sonho só meu.

Acordei com você me sacudindo e me dizendo para acordar, pois era apenas um sonho, um sonho só meu. Acordei, e você já não estava. Não estava porque se foi, porque meu sonho não era seu.

Eu gostava de sonhar com você. Mas quando te encontrei, fui despertado.
Agora estou aqui, acordado, sem sono e só.


Giordano Narada
São Paulo, SP
29/07/2012
02:07 AM

domingo, 18 de março de 2012

Minha febre...

Às vezes penso em tentar controlar o que sinto. Mas logo concluo que querer controlar o sentir é como querer arrancar-me o humano e o divino. Então, quando sentimentos indesejados explodem no peito, desejo outra vez, não ser o que sou apenas para não sentir o que sinto.

Quando dói, o que é bom perde o sentido e só o que importa é o que faz desdoer.

Me distraio com canções, leio, trabalho, fico de papo pra ver se me acho. Mas não demora e o que dói está de volta, o Ópio da alma efeito já não faz.

 Preciso de algo mais forte, quem sabe, você!

Então você diz que preciso é de mim, que a resposta é de dentro e que estou me perdendo. Olho pra dentro e encontro... Você!

Sua onipresença me assombra, seu canto me encanta e seu encanto me embriaga. No meu palco o centro é sempre seu. Abrem-se as cortinas e o que vejo é sonho e delírio de febre, que me aquece e me adoece, que me cativa e me enfraquece.

‘’Estou enferma de amor’’, grita a noiva enamorada no conto e no canto do sábio rei. Grito esse que encontra eco em meu peito, primeiro um grande alarido, depois um cansado gemido que encontra repouso no abismo que me habita, aquele que eu chamo de alma. Abismo esse que me abisma todos os dias, quando me escondo no fundo, me perco profundo, mais não de você.

Me perco em você, me perco por você, mas não de você. É assim o que assim é? Meu amor, minha dor, meu delírio, minha febre... Sararei ou morrerei?

Giordano Narada

CONFISSÕES DE UM VAGABUNDO

Tem gente que me chama de inconstante. Dizem que eu não sei o que quero, que pareço macaco louco, pulando de galho em galho sem achar pouso. Dizem que por isso não sou confiável, e ninguém pode “apostar” em mim. Na verdade todas as pessoas que disseram estas e outras coisas similares tem toda a razão. Não há nenhuma segurança em apostar num vagabundo.

Eu tenho andado como um transeunte existencial, experimentando muitos caminhos, entrando em frias com muita facilidade e saindo delas com muita dificuldade. Fazendo inimigos à primeira vista, e descobrindo alguns raros amigos, sempre na hora que o “pau tá cumendo”. Aliás, esse assunto de amizade ainda é um tanto confuso pra mim, porque o que teve de gente que disse era meu amigo, mas na hora do “pega pra capá” só sobrou eu na areia movediça pedindo a Deus que não fosse meu amigo, porque se fosse iria fazer como todos os outros. Com Jesus Cristo foi assim, na hora do “pau quebrar” não sobrou ninguém. Foi assim com ele que tava fazendo tudo certo, imagina comigo que sou um bosta e só faço merda.

Mas o fato é que eu sou complicado mesmo. Acho que até Deus, se fosse possível teria se mandado também. Porque o que eu já meti de amigo meu em roubada não tá no gibi. E o pior é que, com meu poder de persuasão em conseguia levar uma galera atrás de mim naquilo que eu acreditava ser a “onda do momento”, só que logo eu percebia que não era nada daquilo, aí eu tentava convencer a galera de que a gente tava fazendo merda, que o buraco era mais embaixo, mas aí já era tarde. Agora quem me seguiu na burrada acredita mais do que eu e acha que eu é que tô viajando agora.

Eu queria experimentar, entender, errar pra poder acertar. Acho que não tem problema experimentar. As grandes experiências de grandes revolucionários que mudaram o mundo pra melhor surgiram de inúmeras tentativas e erros. E eu queria ser um revolucionário. Mas eu não podia fazer isso sozinho, então eu arrastava quem eu podia comigo, buscando todo argumento possível e impossível para ganhar parceiros de gangue, mas deu sempre errado, toda vez. Era bom pra mim e eu queria compartilhar com todo o mundo, mas não foi bom pra todo mundo. As únicas coisas que parecem estar dando certo são aquelas que estou fazendo sozinho, ou em parceria com alguém que já estava “indo pra lá”,  então só passamos a ajustar os passos para andamos juntos. Explosões espontâneas surgem e coincidem com o meu caminho, então faz sentido. Que merda de existência complexa.

Eu só queria mudar o mundo, mas não sabia como. Eu tinha que tentar tudo. Bom, eu não tentei tudo, mas tentei um bocado de coisas, acredite. Ganhei todo mundo, perdi todo mundo. Ganhei de novo e perdi outra vez. Fiquei repetindo essa masturbação de alma até não sobrar mais ninguém. Pronto, não sobrou ninguém. E agora?

Agora sobrou apenas a vagabundagem de um andarilho sem bússola nem mapa, sem religião, sem graduação, sem lugar pra ir nem pra voltar, só.

Duvido de tudo, nada é absoluto a não ser o relativo, nem mesmo minha posição sobre tudo isso. Já faz muito tempo que me dei a liberdade de mudar de opinião, e não duvido que venha a mudar de idéia sobre a própria idéia da liberdade de mudar de idéia. Mas mesmo com toda essa dúvida, uma certeza se impõe: Eu ainda vou mudar o mundo.

Há um potencial ilimitado dentro de cada comedor de feijão no mundo, e eu, um moleque paraense, criado com pé descalço e sem camisa, menino da roça filho de baiano que teve que recomeçar a vida um sem número de vezes, não serei diferente

Morri muitas vezes, ressuscitei todas elas. Fome eu já passei, vergonha um bom bocado, humilhado já fui, esquecido com freqüência. Já tive alguns sucessos também, mas continuei com fome. Aprendi muito, mas continuei burro. Amei, trai, machuquei, fiz sorrir, chorar, levantei, derrubei, fiquei, fui embora. Voltei várias vezes, mas me fui novamente. O que sobrou?

Sobrou o mundo inteiro pra ganhar e já bastante história pra contar, mesmo tendo só 28.
Acho que vou tentar de novo algo novo, ou talvez algo velho, não sei. Quem sabe dessa vez eu acerto?!

É isso: meu nome é Giordano e essa é a confissão de um vagabundo.

Giordano Narada
06/12/2011